25 de maio de 2013

XVI - Lost in a wrong way




Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço. - Immanuel Kant


Após tanto tempo tentando se recordar do que realmente estava fazendo ali, chegou à conclusão de que não tinha nem sentido nem direção.  Era um projétil lançado no vácuo. Sentia pena de si e tentava ofuscar isso em atitudes que o fizessem se sentir capaz, apesar dele saber que não era. Coitado, um pobre coitado. Não tinha endereço psicológico fixo, sempre mudava, mas não saía do mesmo. Entendes? Não? Nem eu. Nem ele. Ah, bem, esqueci-me de continuar a apresentá-lo. Além de inconstante e perdido era rejeitado. Mas não me digas que ele era bem aceito, por favor, pois ele não era. Devo concordar que sempre foi um dos que recebiam os melhores tratamentos, já que tratava a qualquer um da melhor maneira possível, mas não era visto como achava que deveria ser. Nada muito espalhafatoso e gritante, mas algo mais simples, talvez um pouco mais além de um “Oi, tudo bem?”.  Mas não, não se culpe, ele nunca manifestou necessidade disso, não é? Sei que não, era muito sem defeitos para demonstrar tamanha carência interior. Carente, isso sim ele era, entretanto supria isso da melhor forma que sabia, ajudando aos outros. Era só falar, lá estava ele. Era sonhador, queria melhorar o mundo por si só e agarrava a essa ideia de todas as maneiras. Pobre coitado, fazia tanto e ao mesmo tempo não fazia nada. Tanto para tantos e nada para ele. Mas estava decidido a por fim a isso tudo e resolveu deixar seus horários e seguir sem direção, dessa vez fisicamente. Andou quilômetros e mais quilômetros até se dar conta que não era assim, não era o que ele queria. Para ser sincero, ele queria poder rasgar a si próprio até ficar em pedacinhos, porque queria que os outros o vissem como era, e ele era assim. Contudo não conseguiria fazer isso, e estava triste, ou era triste, não sei ao certo.  Pois bem, fez uma revista em seu passado e em suas atitudes passadas e tudo se demonstrava na mais perfeita ordem. Por que sempre tão correto? Não sabia nem ao menos o motivo de tantas ações socialmente elogiáveis. Mas ele realmente gostava daquilo, gostava de se sentir útil aos outros, até porque não era útil para si próprio. Refletiu mais um pouco e viu que alguma coisa nele fazia sentido. Ele gostava de ser ele, pelo menos um pouco. Que fosse um perdido para os alheios, mas que estivesse pleno de si, era esse o ponto no qual iria se assegurar. Firmou-se nisso e voltou, agora decidido a se auto-afirmar. E fez isso. Descobriu-se a cada dia um pouco e passou a se olhar de maneira diferente. Dizia que, depois de tanto refletir sobre sua vida, não queria ter que por fim à ela e resolveu solucionar seus problemas da maneira mais simples que sabia. Por um tempo bem que ele conseguiu, mas, mais do que conseguir, ele pode conviver com si mesmo sem se achar um estranho desesperado por salvação. Contudo, mesmo assim, ele sabe que no fundo o estranho continua lá, com uma grande quantidade de espaço reduzida, mas à espera de algum imprevisto para entrar em ação e ser revogado, pois disso ele era feito, e isso era o que ele não queria aceitar.

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